Que solidão é essa vivida pelo homem preto LGBT+?

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Aqui não pretendo dizer que preto não pode exaltar sua beleza ou experienciar sua sexualidade como bem quiser, mas provocar sobre como estamos nos relacionando (de si para si e entre nós), por vezes, reproduzindo a lógica de esvaziamento do corpo, agora em espaços pretos. Essa solidão e carência sentida é construída diariamente. Não amadurecemos nossa inteligência emocional, pois não há exercício de hipertrofia também para os sentimentos. Sabemos procurar beleza, mas não sabemos buscar afetos. Todos os dias somos exibidos ao músculos e não ao amor.

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Nós homens pretos LGBT+ estamos experienciando uma realidade fantasiosa, mesmo entre nossos pares de cor e luta. De dia as pessoas reclamam da solidão do homem preto LGBT+. A noite, as mesmas pessoas, exibem corpos, como em um mercado ou açougue, dando espaço para serem consumidos tal qual carne e selecionados como produtos de uma loja num shopping.

Há padrões de beleza de corpos pretos exaltados como os ideais. São os que obterão atenção, likes e curtidas. O corpo do preto gordo, do menino com traços mais negróides e da bicha afeminada ganhará menos visibilidade do que o malhado, o de pele clara e heteronormativo. Ainda não consigo compreender de forma lúcida quais entre estes dois grupos serão mais atingido pela solidão e carência de afeto.

Estamos vendo a reunião de pretos em alguns espaços nas redes sociais e na vida. Mas é sabido a insuficiência da constituição de grupos monoraciais. É preciso pensar no que estes grupos estão propondo de diferente em relação ao ensinado pelos colonizadores. Senão estaremos reproduzindo opressões, agora sem a desculpa destas estarem vindo do “branco opressor”.

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O que me surpreende é ver homens negros LGBT+ se exibindo (com todos direito possuído), conseguindo a atenção desejada, estabelecendo contatos, e a noite fragilizados emocionalmente, carentes de afeto e desejosos de cuidados profundos. Existe uma dedicação para o cuidado do corpo físico, uma exigência social advinda do ideal branco de beleza, entretanto, não existe o mesmo nível de dedicação, em boa parte dos casos, no cuidado com a subjetividade e espiritualidade. Viramos belos corpos a passear vazio pela existência esperando viver um amor que não foi construído em nós.

Cada qual sabe de si, mas num processo de cuidado coletivo, tratando-se de um grupo tão marginalizado como o LGBT+ pretos, é preciso pensar em como não nos violentarmos reproduzindo o modelo social incapaz de dar conta das nossas demandas. A subjetividade do homem preto possui outras demandas, diferentes da do homem branco, e isso é uma reclamação, por diversos fatores, de alguns movimentos organizados de mulheres. É preciso ouvir.

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Se há inteireza de si a relação com o mundo, com seu corpo e com a exibição dele será menos tensa. Todavia, em boa parte dos casos, há muitas fragilidades. Ir na contramão do sistema e aproximar o corpo físico do corpo subjetivo pode ser um dos caminhos viáveis para cuidamos dessa parte emocional (nossa e dos nossos) que, deficiente, acentua o sentimento de solidão.

Por: Van Sena Omoloji, Bacharel Interdisciplinar em Artes pela Universidade Federal da Bahia

Fotos: Revista Trip; Alma Preta, Agência Patrícia Galvão e ceert

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